Acabei de assistiri ao filme “Up – Altas Aventuras”, uma das últimas jóias produzidas pela Pixar, que nos premiou com tantos filmes de qualidade e de conteúdo, até agora. Assisti recentemente ao “Monstros vs. Alienígenas”, da Dreamworks, outra que costuma exibir ótimos filmes em animação, mas fiquei muito, muito decepcionado com o filme. Ele até é de uma excelente qualidade técnica, mas achei a história extremamente superficial, não tendo sido muito bem explorada, apesar da ótima idéia. Já em “Up”, o que acontece é exatamente o contrário. Ninguém apostaria que com uma sinopse dessas (idoso resolve fazer uma aventura para o coração da América do Sul em nome da memória da falecida esposa) o filme teria tanta profundidade, tanta qualidade.
Uma coisa que me impressionou foram os minutos iniciais do filme. Enquanto o encontro das crianças parece muito com tantos encontros que vemos em tantos filmes infantis, assistir a evolução da vida deles e ver como eles abriram mão do sonho de procurar pelas “Cataratas do Paraíso” em nome da vida cotidiana é ao mesmo tempo uma constatação da realidade e uma análise comovente, de como substituímos alguns sonhos em nossa vida, mas em nome de outros, que podem não estar em nossos planos iniciais, mas muitas vezes se revelam ainda mais prazerosos. O envelhecimento feliz do casal mostra como eles fizeram a escolha certa. Mas numa vida comum, sempre sonhamos fazer algo novo, diferente, único. E é aí que surge a iniciativa do Sr. Fredricksen.
É claro que não faz sentido. Não faz sentido Russel viajar com ele, nem eles aparecerem de repente na América do Sul, os cachorros falantes, etc. Mas é um filme, e nos filmes, devemos aceitar tudo, em nome da diversão. Vemos como Fredricksen tem essa obsessão por deixar a casa no topo da cachoeira, o que leva o velhinho a procurar virar as costas para todo o resto, e aquela eterna “lição de moral” dos filmes voltados para crianças mostra como ele aprende a dar maior valor àquilo que realmente importa, que é o companheirismo, a ajuda a quem precisa (Kevin). Por sinal, a casa tem um papel de extremo destaque no filme, sendo que podemos até considerá-la um personagem do mesmo. Vejam que o filme tem muito pouco confronto, ou armas, ou soluções mirabolantes para os problemas que enfrentam. Quase tudo no filme, as soluções para os problemas que eles passam, passa pela casa. Foi uma saída muito criativa dos realizadores do filme.
Outra coisa que me impressionou também foi como o filme é comovente, como ele nos envolve em desejar de coração que os sonhos e vontades do velhinho se tornem realidade. A cena onde ele descobre as aventuras que a esposa considerou ter vivido com ele é muito emocionante, bem como os créditos finais onde vemos a conseqüência das aventuras deles, e de como a amizade entre Fredricksen e Russell continuou depois. O artifício das fotos, da iconização das pessoas e dos sentimentos através de fotos, bibelôs, poltronas, da própria casa, é maravilhoso. Isso vai longe da idéia de valorizar aquilo que é material, pois essa forma de linguagem do filme sintetiza muita coisa em poucas imagens ou palavras, a ponto do filme quase abdicar da linguagem falada em seus primeiros minutos. Eu sempre achei genial a habilidade dos cineastas que conseguem mostrar, mais do que falar, aquilo que querem passar. É a essência da sétima arte, que a diferencia do rádio, da música, dos livros, jornais e revistas. E o filme, sem exagero, é uma obra-prima dessa habilidade.
Uma outra coisa que percebi ao assistir ao filme foi que o próprio filme, em seu transcorrer, não valoriza tanto o objetivo inicial da aventura do velho, ainda que indiretamente ele tenha atingido o seu intento. A partir de um determinado momento, o que era principal passou a ser secundário, não apenas para o velhinho, mas para o filme, como um todo. Ainda que isso seja lógico, dentro da idéia de que Fredricksen passou a dar valor ao que realmente importava, vemos que novamente de maneira sutil, mas clara, o filme valoriza os meios, mais do que os fins. Afinal, se o objetivo final fosse a casa na cachoeira, todos os laços e acontecimentos resultantes do processo estariam em segundo plano. No fim, achei que a casa caprichosamente se colocar no lugar que se esperava foi apenas para contentar aqueles que diriam que o sonho do velho não se realizou, caso isso não acontecesse. Na verdade, a exemplo do que ocorreu na vida dele e da esposa, foi almejando um sonho que ele conseguiu realizar outros tantos, muito mais edificantes e recompensadores.
Adorei o Dug, o cachorro com cara de bobo mas extremamente valoroso e fiel. Para um fã de cachorros, Dug é tudo aquilo que eu gostaria de ter. O velhinho, ainda que meio rabugento é extremamente simpático e em momento algum deixamos de nos envolver com o seu objetivo (claro que os minutos iniciais praticamente capturam o espectador na busca dele, de forma que entendemos tudo aquilo que ele faz em nome disso). Russell nos faz pensar que ele seria de grande ajuda num ambiente hostil como a floresta, mas claro que sendo uma criança, ele não tem mesmo como ser uma criança-prodigio, como tantos filmes nos fazem acreditar. Sua maior virtude é mesmo sua lealdade, coragem e o espírito do escoteiro. Achei também bastante comovente a questão do pai dele, que pelo visto é um pai ausente e talvez, separado, desse mais importância a alguma outra família ou a seus compromissos, do que a seu filho. Merecidamente, o filme mostra como a aventura de Russell e Fredricksen cria laços entre ambos que compensam a falta que ambos sentem. Novamente, algo tocante e extremamente realista, o que impressiona num filme onde grande parte do público deve ser criança. Nos faz pensar: será que tudo o que realmente queremos, podemos ter? Será que não seria a hora de fazermos com que as pessoas aprendam a valorizar o que têm, ou ainda buscar caminhos para sua realização pessoal e sentimental, sem ficarmos presos a sentimentos que, ainda que sejam fortes, podem minar a nossa felicidade se focarmos apenas neles? O pequeno escoteiro pode ser feliz mesmo sem o pai, e Fredricksen pode ter alegria na vida, ainda que tenha perdido o que mais importava a ele até então. Longe de querer virar as costas a sentimentos tão profundos, como o casamento e a relação entre pais e filhos, "saber fazer do limão uma limonada" é algo que deveria fazer parte de todo mundo.
Bom, acho que já escrevi demais, e como sempre, divaguei bastante em um filme que deveria apenas divertir. Mas como eu tenho mesmo o costume de fazer esse tipo de análise, fiquei muito feliz com o que vi em "Up". Quem dera pudessem haver mais filmes assim, que nos elevam e divertem ao mesmo tempo.
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