domingo, 6 de dezembro de 2009



Ontem assisti ao “2012”, o novo filme do especialista em catástrofes Roland Emmerich. Baseado nas previsões maias de que nosso planeta (ou nossa civilização, por assim dizer) vai terminar no fim daquele ano (21/12/12), o filme derrama espetaculares cenas de catástrofe, seguindo o estilo Emmerich de serem praticamente perfeitas.
Logicamente o espectador quer entender como o mundo pode mudar tanto em tão pouco tempo. No entanto, achei que a explicação dada pelo filme foi de uma cientificidade bem capenga, que somos obrigados a engolir em nome do prosseguimento do filme. Eu, particularmente, imaginava que os tais neutrinos, se pudessem ser tão prejudiciais à água no interior do planeta, poderiam causar ainda mais estragos na superfície. Não me perguntem como, pois sou leigo no assunto, mas talvez o derretimento das calotas polares, maior incidência de doenças de pele, interferência nas comunicações de satélites, mudanças nas massas de ar continentais e no movimento das marés, sei lá.
Também achei demérito do filme a enorme quantidade de clichês dos filmes do gênero – por sinal, a maioria vinda dos próprios filmes dele, em especial do “Independence Day”. A família separada que se junta novamente por conta das catástrofes, as sub-histórias que querem emocionar mas sem a menor profundidade dramática, as mortes estilo “lição de moral” para alguns personagens, os prédios que caem quase em câmera lenta, só para criar cenas de ação emocionantes, e a enorme repetição das fugas “em cima da hora” em carros, aviões, etc. Chega a ser enjoativo, tanto quanto as inúmeras cenas de pousos e decolagens de naves nos últimos filmes da saga “Star Wars”. A cena onde John Cusack é considerado morto é uma repetição descarada do final de “ID4”, quando todo mundo fica observando monitores e torcendo para que ele (ou naquele caso, Will Smith e Jeff Goldblum) reapareça vivo.



Ainda, tem inúmeras coisas que não fazem o menor sentido. Por que Jackson e os filhos saltaram sem a menor cerimônia a cerca do governo? Só para colocar uma pulga atrás da orelha do pai sobre o que estava acontecendo ali? Por que a arca não pode ligar as turbinas com a comporta aberta? Só para criar uma sub-história essencial para a conclusão do filme? É, Independence Day também tinha isso. Como as turbinas ligadas no reverso poderiam ter a força necessária para impedir, em alguns segundos, que um monstro de metal como era aquela arca não se espatifasse contra o Everest? Será que os neutrinos revogaram também a lei da inércia? Por que o russo (Karpov) desceu da plataforma antes da porta abaixar? E o músico, que morreu sem conseguir dizer um olá para o filho? E a morte da namorada do russo, Tamara? Não vejo dramaticidade nenhuma nisso. As cenas de mortes de milhares, milhões de pessoas, acontecem aos montes e não vemos piedade, sentimento nenhum nelas. As pessoas morrem queimadas, ou caindo em buracos, com a mesma naturalidade que carros voam e prédios caem. Que eu saiba, pessoas não são meros elementos constituintes de uma cena de ação. Deveria haver esperança para os que ficaram de fora, e não apenas o fim. Restou, claro, a fé. Mas para os que não crêem, isso é muito pouco.
Também achei que faltou uma melhor explicação da própria profecia maia. Deveriam ter mostrado estudiosos, ou nativos que guardam a história propagada entre as gerações, montando um cenário místico e de fé, onde esse cataclisma pudesse significar algo mais, em termos globais, do que apenas o fim, e ponto. Acredito que para a cultura maia o fim do mundo em 2012 signifique mais do que apenas a morte, mas uma renovação, ou um divisor de águas, no sentido de que, se os povos vão todos perecer, isso signifique uma tomada de atitude para que a morte seja apenas o caminho para algo maior, após ela. O filme não tem mesmo um caráter edificador, nesse sentido. A fé, manifestada nas orações ao redor do mundo, fica meio mascarada. Afinal, sabemos que o rezar, por si só, pode não significar nada para os que não buscam viver aquilo que pregam ou rezam. Então, implorar clemência pode não significar a salvação. Mas a união dos povos, num momento desses, talvez significasse muito mais.



Finalmente, a lição de moral do filme. Adrian chama a atenção para o fato de que muitas pessoas ficaram de fora, e convence os líderes mundiais a abrirem as portas como um ato de dignidade, para dizer o mínimo. O que todo mundo esquece é que os que estavam à beira das arcas já são os escolhidos, que já sabiam da existência das arcas e que tinha se preparado para ocupá-las. Ou seja, não são o “povão”, que em sua maioria morreu sem sequer ser avisado do que aconteceu (o pronunciamento do presidente nem ao menos explica direito o mal que os atingiu). Vemos ali um “Titanic”, uma escolha seletiva dos “melhores” em escala mundial, onde os únicos afortunados foram, pelo visto, a família do Jackson Curtis (Cusack) e alguns poucos trabalhadores chineses. O resto, já era elite ou considerado importante. Pura baboseira, convenhamos. Talvez amenizasse isso, valorizando um pouco mais as minorias, se mostrassem a comemoração dos africanos, que não tiveram seu continente inundado, em ficarem vivos e por significarem um novo começo, em seu continente. Mas não...
Bem, eu já sabia que não encontraria um primor de filme no 2012. Mas também não esperava ver “mais do mesmo”, inclusive a repetição das idéias do próprio diretor, em outros filmes. Acho que isso prova que os filmes-catástrofe estão mesmo com os dias contados, tanto pela escassez de idéias, quanto porque, depois de destruir o mundo inteiro, como dá para ir mais longe? Destruiremos o sistema solar, a constelação, a galáxia? Isso nem os maias foram capazes de inventar, mas não dá para duvidar da criatividade (entenda-se lucratividade) de Hollywood.

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