quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Manhã

Acordo para mais uma manhã comum. Estranhamente, não foi graças ao despertar da TV, ou à agitação de pessoas em casa. Simplesmente acordo. Em meu quarto, meu irmão já não se encontra mais dormindo ao lado. Tudo bem, provavelmente já fora trabalhar. Olho o relógio, são 8:15 da manhã. Pelo menos não vou me atrasar para o serviço. Levanto-me para tomar café, e nova surpresa: meus pais também não estão em casa. O pai ter sumido tudo bem, ele sempre está fazendo alguma coisa, mas a mãe... isso é estranho. Teria ela ido até a padaria? Bom, melhor não esperar, penso eu. Vai que ela foi comprar verduras! Se eu não tomar o café logo vou me atrasar mesmo. Faço o café e vou me arrumando, escovo os dentes e tudo mais. E nada de alguém aparecer. Isso já estava me encucando, esse silêncio todo não é normal. Faz até mal para a gente, principalmente quem já está acostumado. Ligo o rádio para quebrar o silêncio, e nada. Só chiado. Desisto e vou pegar minhas coisas para ir ao trabalho. Na dúvida, resolvo ver o quarto da minha irmã. Ela com certeza ainda estaria ali, dormindo. Mas não. Que estranho! Incrível minha mãe ter tirado ela da cama tão cedo para alguma coisa. Melhor desencanar de querer encontrar alguém. O difícil é esse silêncio chato, só quebrado em partes pelo chiado do rádio. Com ele desligado, e faltando alguns minutos para meu horário de saída, resolvo então ligar a TV. Pelo menos ali vou ouvir alguém falando. E outra vez não havia nada! Só chiado em todos os canais. Já começo a achar que houve um blecaute durante a noite, uma vez que não tem nada funcionando. Tenho uma última idéia brilhante: usar o telefone. Como não queria importunar ninguém tão cedo, resolvo ligar para o 130 para ouvir a hora certa, uma decisão ridícula penso eu, mas que mesmo assim tiraria de mim essa incerteza. O telefone toca, toca e toca, mas ninguém atende. Nem o computador que informa a hora automaticamente. E isso é estranho, porque uma vez que o serviço telefônico continua operante, o computador também deveria estar. Já começo a achar que esse é um dia daquelas coincidências que importunam a gente, e arrisco um pensamento de que se voltasse para a cama e dormisse de novo, provavelmente amanhã teria um dia começando bem melhor. Mas logo deixo isso de lado, já que o trabalho me chama. Ao menos lá, na repartição pública, vai ter gente o bastante para eu ver e ouvir. Quando abro a porta para o quintal me dou conta de outra coisa: meus cachorros sumiram! Os dois de uma vez. Provavelmente isso explica a ausência do pessoal, eles devem ter fugido pelo portão e foram atrás deles. Já vou me dirigindo ao carro quando novamente me surpreendo ao perceber que não ouço o canto habitual do nosso canário, algo que já faz parte da minha manhã. Ao me dirigir para a gaiola vejo que ele também não está lá. Agora eu começo a ficar preocupado. Já se torna coincidência demais que todos os seres vivos que poderiam estar ali em casa tenham simplesmente sumido. Olho para os céus e não vejo pássaro algum. Por sinal, até o céu está esquisito, pálido e sem vida como num entardecer sem sol, prefigurando uma chuva que deve cair brevemente. Vou até o portão e não tem ninguém na rua. No chão, não vejo sequer uma formiga, um bichinho que seja. Tem algo realmente errado. Na minha mente, já começo a pensar que tudo isso é um sonho, ou melhor, um pesadelo. E dos grandes, daqueles que acordamos sobressaltados. Começo a sentir meu coração batendo mais forte, de nervoso com a situação. Fico parado pensando no que fazer, o que poderia ter causado isso tudo. Uma bomba? Uma experiência? Minha mente passa rapidamente por todas as explicações possíveis, até parar em uma que me atinge como uma flecha: morto. Eu estou morto, penso eu. Não, não pode ser. Eu ainda estou na mesma casa, na mesma cidade, no mesmo planeta. Não senti sair do meu corpo, transpor um túnel ou ir em direção a uma luz, como normalmente algumas pessoas descrevem essa experiência. Continuo me sentido vivo, se me toco ou belisco continuo sentindo a mim mesmo. Talvez os outros tenham morrido, eu não. Mas como pode ter sumido todo mundo, mesmo aves e insetos? No quintal, na casa, nas ruas, só ouço o silêncio. Nem o vento assopra com força suficiente para sussurar coisa alguma. Resolvo tomar o carro e ir até a casa da minha namorada procurar por ela. Pelas ruas minhas dúvidas continuam: não tem ninguém em lugar algum. Tudo parece estar paralisado, morto. Ai, outra vez essa palavra na minha cabeça. Não, deve haver outra explicação. Chego na casa dela e vou entrando, e não encontro ninguém. Na cama dela, uma surpresa: debaixo do cobertor, vejo nossa aliança. Então eu caio na real, sinto em meu coração que não dividimos mais o mesmo mundo. Provavelmente ela está em outro lugar, junto com todo mundo, e eu estou sozinho. Sentado aos pés da cama dela, pensando em tudo isso, começo a chorar. Choro por muito tempo, um choro que parece durar quase a eternidade. Quando paro, resolvo ir até a igreja. Ao tomar essa decisão, sinto no coração que era exatamente isso que deveria ter feito desde o começo. Vou até a capela e vejo que as portas estão abertas. Ao entrar, olho na cruz procurando pela imagem de Cristo, talvez a única maneira de sentir a presença de alguma outra pessoa neste mundo além de mim. Sempre acreditei que Ele nunca nos deixa sozinho, e é com este pensamento que já entro procurando por ele no madeiro. A decepção é grande, pois ele também não estava ali. Neste momento eu senti, enfim, que esta era uma mensagem de Deus. Caio de joelhos, e antes de começar novamente a chorar, imagens da minha vida passam como um turbilhão diante de meus olhos. Cada falha que cometi parecia explodir e me atingir como uma bala de canhão, acabando de vez com o pouco que me restava de equilíbrio emocional. Acabo por cair ao chão, completamente entregue ao sofrimento que me esmagava, comprimia de todas as maneiras. Não tenho forças nem para chorar mais. A dor é tão grande que parece me roubar até a vontade de reagir de alguma forma. Depois de algum tempo, um longo tempo onde eu queria me entregar para sempre e não conseguia, enfim levanto. Volto a olhar a cruz, inconformado com a ausência de Jesus. Não podia aceitar que ele mesmo poderia ter me abandonado. Não assim, sem explicações. Eu sequer podia sentir a Sua presença, algo bastante comum quando estou dentro da igreja. Na minha última tentativa de entender o que se passava, resolvo ir até o sacrário e, sem nenhuma paciência, quebro a portinha que guarda as hóstias consagradas. As peças de bronze estavam ali, mas sequer uma só hóstia consegui encontrar. Sento-me, inconformado. Olho para frente, aquela igreja imensa vazia, o perfeito retrato do mundo lá fora. Eu, o único ser vivente em todo o universo. Mesmo que não pudesse ter certeza disso, eu sentia sem sombra de dúvidas. O silêncio em meus ouvidos irritava, a ponto de eu falar comigo mesmo para abrandar um pouco a ausência de qualquer outro interlocutor. Novamente perdido em pensamentos infinitos, me debruço sobre o ombro da cadeira e me entrego. Perco a noção de tempo: anos , séculos, tudo parece passar, acabar e voltar de novo, tudo em segundos. Ao abrir novamente os olhos, uso minhas poucas forças que restavam para me endireitar na cadeira. Ainda curvado, reflito sobre o que posso fazer: continuar ali parado, esperando talvez acordar disso tudo, ou levantar e continuar procurando para sempre alguém para me dar respostas. De repente percebo que a palidez do ambiente, causada pela pouca claridade lá de fora, começa a sumir. Um suspiro de claridade faz com que eu me endireite e olhe para frente, procurando ver se o céu lá fora melhorou. Quase pulei para trás ao ver no último banco da igreja, bem escondido, um homem. Um homem comum, como todos aquele pelos quais cruzamos todos os dias, que me olhava com atenção e em silêncio. Vagarosamente me aproximo dele, que continua me olhando sem esboçar qualquer reação, a não ser mover seus olhos conforme vou andando. Enquanto me aproximo só penso em perguntá-lo quem é e o que faz ali, mas me sinto impedido. Eu mesmo não quero fazer essa pergunta, talvez porque ache que já sei a resposta. Por sinal, sinto que não posso lhe perguntar nada, uma vez que não havia praticamente nada que ele me dissesse que pudesse revelar algo mais do que eu já sabia sobre o que estava acontecendo. Resolvo então simplesmente sentar ao seu lado e falar com ele. Isso já era precioso o bastante para mim, mais do que qualquer esclarecimento que ele pudesse me dar. - Gosto muito desta igreja. - Eu também. Faz a gente se sentir como se estivesse em casa. - Faz muito tempo que o senhor a freqüenta? - Toda a minha vida. Eu praticamente nasci dentro dela. - E seus pais, também freqüentam aqui? - Não, eles preferem variar. Meus pais gostam de todas, pra falar a verdade. Não tem uma preferência, pois acham que todas elas possuem coisas boas e ruins. - A tal da “Igreja santa e pecadora”, não é? - Isso mesmo. Nessa hora ele sorriu para mim. E seu sorriso de imediato limpou meu coração da mágoa e do medo que tinha se alojado nele. - Mas alguns homens são mais pecadores do que santos. E não é nada fácil de mudar um coração humano hoje em dia. - Não, mas sempre vale a pena. Salvar a ovelha perdida, nem que seja uma entre noventa e nove delas. - De fato, concordo com o senhor. Mas também está mais difícil encontrar boas pessoas que sejam capazes... - ... de tentar reconduzir as ovelhas de volta ao cercado. Sim, eu sei. É uma batalha incessante. Já faz muito tempo que Deus tem chamado pessoas para esse trabalho, mas sempre existe muita dificuldade. As pessoas antes externavam o que sentiam, os antigos hebreus podiam ouvir de seus profetas como Deus falava com eles. Hoje sequer ouvem a Sua voz, quanto mais dar atenção a ela. - Talvez seja a marca da evolução humana. Criam aparelhos e invenções para darem atenção, e se esquecem de quem deu a eles a sabedoria para o fazerem. - É muito bom ouvir isso de você, Paulo. – disse ele, agora olhando fixamente para mim – Mostra que você aprendeu bem o que fora dito aqui. - Sim, aprendi meu senhor. Mas não vivi. Escondi-me atrás de realizações e planos que tinham pouca importância, se comparados ao projeto do senhor para mim. Fui um tolo. - Talvez. Mas eu não vim aqui para falar sobre o que você fez. Vim te dar um recado para você levar para todo o sempre. - Pois não, meu senhor. - Este foi um dia incomum para você, mas é comum para muitos. Muitos dos que vivem no seu mundo, hoje, estão vivendo exatamente assim. Num mundo só para eles. Não vêem as outras pessoas, não as sentem. Se esquecem que dividem sua existência com todo o Universo, e sendo assim devem efetivamente fazer parte dele. Buscar o crescimento do outro, levá-lo a crescer na fé, no amor a Deus, na esperança e também para si mesmo. O mundo é só um lampejo da felicidade da vida eterna, e portanto deve ser vivido como tal. A felicidade que se vive neste mundo é multiplicada no mundo futuro, mas o ódio e o desprezo alimentados neste mundo também se multiplicarão, e se voltarão contra seu autor, depois de sua morte. E esta solidão de um dia poderá se tornar o retrato de toda a eternidade para alguém assim. Lembre-se: se você ajudar um cego a transpor uma avenida movimentada, você o terá tirado do perigo, mas terá feito o mesmo com você também. Isso também vale para a vida espiritual e cotidiana. - Obrigado meu senhor. Posso lhe fazer uma última pergunta? - Tudo bem. Mas você sabe que eu já sei o que me perguntará. Penso um pouco e acho inusitado fazer uma pergunta para alguém que já a conhece, mas resolvo fazê-la assim mesmo pelo bem da lógica: - Onde eu estou afinal? Num sonho ou na realidade? Eu morri ou os outros morreram? - Ninguém morreu, e você não está sonhando. Nem imaginou isso tudo sozinho. Uma voz em sua mente te conduziu, te inspirou a refletir sobre este cenário e tomar uma lição do mesmo. Todos se sentem assim algum dia, como se estivessem sozinhos no mundo. Uns tiram disso uma lição, outros procuram subterfúgios para evitar uma reflexão como essa. A essa voz que você ouviu alguns chamam de consciência, outros de a voz de Deus. A fé de cada um é que dá a melhor resposta. Independente disso, creia em uma verdade absoluta: ser solidário, amável, misericordioso com os outros sempre abriu portas e formou laços em todos os tempos, raças e culturas. E também conduziu muitos ao céu. Como Deus também é senhor dos que não crêem nele, Ele espera que em nome de uma vida eterna maravilhosa, inimaginável, cheia de gozo e alegria, que é algo maior até que as diferenças entre as religiões e crenças, a raça humana possa mudar, deixar de lado a intolerância, o ódio e a violência. Se todos viverem para sempre isolados em seus próprios mundos, será Ele, o próprio Deus, que se sentirá sozinho na imensidão do paraíso.

Inspirado por Deus.